
O número acumulado de focos de calor registrados no Amazonas em outubro aumentou 416,9% entre os dias 4 e 16, período que inclui a realização do primeiro turno das eleições presidenciais. Os registros passaram de 354 para 1.830, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O dia 10 concentrou 494 ocorrências, o maior total diário do intervalo.
O superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Amazonas, Joel Araújo, afirmou que há uma investigação em curso para apurar se parte das queimadas pode ter sido provocada por motivação política. Além do Ibama, participam da apuração a Polícia Federal, a Polícia Civil e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).
A reportagem solicitou posicionamento dos órgãos envolvidos e aguarda retorno. Até o momento, a existência de uma investigação não confirma a motivação política nem identifica responsáveis pelos focos.
O aumento também foi observado em escala regional. A Amazônia Legal registrou 3.695 focos de calor na semana seguinte ao primeiro turno, quase o dobro dos 1.854 contabilizados na semana anterior, de acordo com levantamento do site Repórter Brasil baseado em dados do Inpe. A reportagem apontou que a alta se concentra especialmente no Amazonas e no Pará, em meio à seca associada ao El Niño e a indícios de uso criminoso do fogo em áreas de floresta e terras públicas.
A coincidência entre o avanço dos focos e o calendário eleitoral, porém, não demonstra por si só que as queimadas tenham sido provocadas por razões políticas. Pesquisadores também apontam fatores sazonais e climáticos, como a estiagem e a vegetação mais seca, que favorecem a propagação do fogo.
Queimadas entram no discurso das campanhas
A crise ambiental também passou a ser usada nos discursos eleitorais. Neste sábado (17), o coordenador da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Manaus, Marcelo Ramos, disse que levará o problema ao governo federal e pedirá reforço nas ações de combate. Ao comentar a relação entre os focos e o resultado eleitoral, afirmou:
“Eu podia dizer que os municípios onde tem maiores índices de queimadas no Amazonas são os municípios onde o Bolsonaro ganha a eleição, porque quem vota no Lula não queima a floresta, mas não vou fazer isso.”
A candidata ao governo do Amazonas Maria do Carmo Seffair (PL), apoiada por Flávio Bolsonaro, também abordou a fumaça em um vídeo publicado neste sábado. Ela criticou o plano de governo de Lula e o adversário Omar Aziz (PSD), citando a previsão de implementação do Plano Nacional de Manejo do Fogo.
“Se você for ler o plano de governo do Lula, coisa que ele ou nenhum outro petista fez, está na página 70: no próximo mandato, vamos implementar o Plano Nacional de Manejo do Fogo. Já teve Lula 1, 2, Dilma, Lula de novo, já teve Omar no governo, e todas essas promessas acabam assim, virando fumaça”, afirmou.
Antecedentes e limites das investigações
A suspeita de que incêndios possam ser usados como instrumento de pressão política ou de avanço sobre áreas públicas já apareceu em outros episódios. Em setembro de 2022, a Amazônia registrou 41.282 focos de calor, alta de cerca de 146% em relação ao mesmo mês de 2021. Naquele mês, o Amazonas contabilizou 8.659 focos, recorde estadual para setembro desde o início do monitoramento, segundo dados do Inpe divulgados à época.
Outro caso citado em discussões sobre possível ação coordenada é o chamado “Dia do Fogo”, ocorrido no Pará em agosto de 2019. Na ocasião, investigações apuraram suspeitas de organização de queimadas na região de Novo Progresso. Os inquéritos, porém, foram arquivados em 2024 sem indiciamentos, segundo informações do Ministério Público Federal divulgadas pela Agência Pública.
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