
O governador eleito Omar Aziz (PSD) assumirá o comando do Amazonas em janeiro de 2027 diante de um cenário econômico que exige atenção às contas públicas. Embora o estado mantenha sua dívida dentro dos limites estabelecidos pela legislação, os números oficiais revelam compromissos financeiros elevados, crescimento moderado da arrecadação e uma parcela reduzida do orçamento destinada a investimentos.
Dados informados ao Tesouro Nacional mostram que a dívida consolidada do Amazonas alcançava aproximadamente R$ 10,1 bilhões em agosto de 2026. Descontados os valores financeiros permitidos pelas regras fiscais, a dívida líquida estava em torno de R$ 6,1 bilhões.
Apesar dos valores expressivos, o endividamento estadual permanece distante do limite legal. A dívida líquida representava aproximadamente 20,7% da receita corrente líquida, enquanto o teto permitido aos estados é de 200%.
Isso significa que o Amazonas não enfrenta, pelos indicadores disponíveis, uma situação de endividamento acima dos limites legais. O desafio está em administrar os compromissos existentes sem comprometer os investimentos e os serviços públicos.
Dívida consome quase R$ 1,5 bilhão em oito meses
Entre janeiro e agosto de 2026, o governo do Amazonas destinou aproximadamente R$ 1,48 bilhão ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública.
Desse total, R$ 682,1 milhões corresponderam a juros e R$ 796,4 milhões à amortização de empréstimos e outras obrigações financeiras.
No mesmo período, os investimentos liquidados pelo estado somaram R$ 701,8 milhões.
Na prática, o volume destinado ao pagamento da dívida foi mais que o dobro dos recursos contabilizados como investimentos em obras, equipamentos e outras melhorias estruturais.
A comparação revela uma das principais dificuldades que o próximo governo terá de administrar: equilibrar o pagamento de compromissos financeiros com a necessidade de ampliar os investimentos em áreas essenciais.
Embora a dívida consolidada tenha diminuído em relação aos anos anteriores, seu custo continua representando uma despesa significativa para os cofres estaduais.
Arrecadação de R$ 23,6 bilhões não significa dinheiro disponível
Nos primeiros oito meses de 2026, o Amazonas arrecadou aproximadamente R$ 23,6 bilhões, enquanto as despesas liquidadas chegaram a R$ 23 bilhões.
A diferença positiva de cerca de R$ 583,5 milhões, entretanto, não representa necessariamente dinheiro disponível em caixa.
Isso porque parte da arrecadação possui destinação obrigatória, enquanto outras despesas já assumidas pelo governo podem ainda não ter sido efetivamente pagas.
Outro dado chama atenção: apenas 3% das despesas liquidadas no período foram classificados como investimentos.
O percentual mostra que a maior parte dos recursos estaduais foi direcionada à manutenção da administração pública e ao cumprimento de obrigações já existentes.
Para o governo que assumirá em 2027, ampliar a capacidade de investimento dependerá não apenas do crescimento da arrecadação, mas também do controle das despesas e da administração dos compromissos financeiros.
Arrecadação cresce pouco e ICMS apresenta queda
A evolução das receitas estaduais também merece atenção.
Levantamento divulgado pelo Tesouro Nacional em outubro apontou que as receitas correntes do Amazonas cresceram apenas 4% no quarto bimestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025.
O resultado colocou o estado entre aqueles com menor crescimento de arrecadação no país.
Por outro lado, as despesas correntes avançaram 2% na mesma comparação, indicando que os gastos também cresceram em ritmo moderado.
A preocupação aumenta quando se observa o comportamento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), uma das principais fontes de receita própria do Amazonas.
Informações apresentadas durante a elaboração da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027 apontaram queda de 4,85% na arrecadação do ICMS principal durante o primeiro quadrimestre de 2026, em comparação com igual período do ano anterior.
O desempenho do imposto é particularmente importante para um estado cuja economia mantém forte dependência das atividades industriais e comerciais relacionadas à Zona Franca de Manaus.
Reforma tributária será outro desafio para o próximo governo
Além das obrigações financeiras, Omar Aziz terá de administrar os efeitos da reforma tributária sobre a economia amazonense.
A substituição gradual dos impostos sobre o consumo e a implantação do novo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) exigirão acompanhamento das receitas estaduais e dos mecanismos destinados a preservar a competitividade da Zona Franca de Manaus.
O sistema de incentivos fiscais, fundamental para a atividade industrial do estado, também continuará no centro das discussões econômicas.
Embora esses benefícios sejam importantes para atrair empresas, manter empregos e estimular a produção, será necessário acompanhar seus efeitos sobre a arrecadação e os resultados econômicos obtidos pelo Amazonas.
A proposta de diretrizes orçamentárias para 2027 trabalhou com uma previsão de receitas próxima de R$ 36 bilhões, em um cenário marcado por incertezas sobre o comportamento da economia e a evolução dos tributos estaduais.
O que Omar Aziz encontrará em janeiro de 2027?
A situação financeira que será entregue ao próximo governador não pode ser definida apenas pelo tamanho da dívida ou pelo volume da arrecadação.
O diagnóstico também depende dos valores disponíveis em caixa, das despesas ainda não pagas, dos contratos em andamento e das parcelas de empréstimos que vencerão nos próximos anos.
Essas informações somente poderão ser consolidadas após o encerramento do exercício financeiro de 2026.
Também será necessário distinguir os compromissos assumidos durante a administração Wilson Lima daqueles constituídos sob o governo Roberto Cidade, que assumiu o Executivo estadual em abril.
Os indicadores disponíveis até agosto mostram que o Amazonas apresenta uma dívida dentro dos limites legais, mas enfrenta restrições para ampliar investimentos diante de compromissos financeiros elevados e crescimento moderado da arrecadação.
O cenário não permite afirmar que o próximo governo encontrará os cofres públicos vazios, tampouco que receberá uma situação financeira inteiramente confortável.
O que os números demonstram é que Omar Aziz assumirá um estado com receitas bilionárias, mas também com obrigações que exigirão planejamento, controle de despesas e definição de prioridades.
Entre o discurso de quem entrega o governo e a avaliação de quem assume, os dados oficiais oferecem um retrato mais concreto da situação econômica do Amazonas.
O desafio de 2027 não será apenas administrar quanto o estado arrecada, mas decidir quanto desses recursos poderá efetivamente ser transformado em investimentos e serviços para a população.
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