
A tentativa do comandante-geral dos Bombeiros, coronel Orleilso Muniz, de responsabilizar o governo federal pela falta de aeronaves para combater as queimadas esbarra nos próprios documentos. Eles mostram uma resposta negativa à doação direta dos equipamentos — mas também revelam que havia outros caminhos de apoio e que a articulação do governo estadual precisa ser explicada.
Em 18 de setembro, o CBMAM pediu ao Ministério da Justiça quatro aeronaves para combater incêndios, um avião para transporte e veículos. Em resposta, a Secretaria Nacional de Segurança Pública informou que não tinha equipamentos disponíveis para doação e indicou alternativas: editais, recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública e emendas parlamentares. A resposta não equivale a uma recusa de toda ajuda federal.
O Ministério do Meio Ambiente afirmou que, em 23 de setembro, o governo do Amazonas solicitou apoio pelo Ciman Federal. Foram acionadas equipes do Respad e uma aeronave do projeto Pegasus. Segundo o MMA, o próprio estado dispensou a equipe em 30 de setembro, antes do deslocamento. O ministério também disse que orientou o Amazonas a pedir recursos pelo sistema de proteção e defesa civil, mas que a solicitação não havia sido formalizada.
O Ibama, por sua vez, informou que reforçaria a operação com aeronaves e brigadistas e citou R$ 45 milhões aprovados para investimentos do Corpo de Bombeiros em ações relacionadas à prevenção e ao combate a incêndios. Os dados não respondem a todas as dúvidas sobre prazos e recursos disponíveis, mas enfraquecem a versão de que o estado foi simplesmente abandonado pela União.
O problema, portanto, não é apenas o pedido por equipamentos. É a distância entre o que o comandante afirmou publicamente — que o governo federal negou apoio — e o quadro descrito nos documentos: houve uma negativa à doação direta, indicação de alternativas, apoio operacional acionado e, conforme o MMA, uma equipe dispensada pelo estado.
A cobrança sobre Muniz se torna mais grave porque ele não fala como observador, mas como chefe da corporação responsável pela operação. Cabe a ele esclarecer por que o pedido foi apresentado à Senasp nesses termos, se as alternativas indicadas foram buscadas e por que a equipe federal foi dispensada. Sem essas respostas, atribuir a crise exclusivamente a Brasília soa menos como prestação de contas e mais como tentativa de deslocar a responsabilidade.
Não há, nos documentos apresentados, base para afirmar irregularidade pessoal do comandante. Há, sim, elementos suficientes para cobrar explicações sobre a articulação e a comunicação da crise. Em meio à fumaça que sufoca a população, a disputa política não apaga uma pergunta: se havia apoio e caminhos de financiamento, o que o governo do Amazonas fez para obtê-los?

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